
A rapariguinha chamava-se Marisa. Tinha uns grandes olhos castanhos, e pelo menos uma vez por mês, trazia a expressividade do seu olhar até junto da minha porta. Bastava a maneira como batia, plena de suavidade, com receio que a porta se desfizesse perante o seu toque, que eu já adivinhava quem seria.
Marisa carregava a gata felpuda nos braços e pedia-me que tomasse conta dela. Desta vez são só três dias. Pode ser, Sr. Tomás? Deixo-lhe aqui a comida. Espero que a ‘Viagem’ não lhe dê muito trabalho.
Os recados eram sempre os mesmos, os quais nunca tive coragem de recusar. O olhar da rapariguinha lembrava-me o da minha companheira que tinha partido, mas essa, para uma viagem eterna.
Pouco tempo depois da gata se instalar nos aposentos temporários, ouvia a família partir entre o bulício dos sacos, deixando para trás uma mensagem implícita para a vizinhança: Sabemos que se perdem entre cogitações sobre o destino que tomamos. Não nos levem a mal, mas sobre isso não poderemos falar.
Era uma famíla aparentemente vulgar que mantinha um bom relacionamento connosco, no entanto as conversas mudavam sempre de rumo, assim que alguém se atrevia a inquirir sobre as viagens. Todos queriam saber das razões e dos locais para onde iam. A mim, isso não me despertava tanta curiosidade. Talvez por isso, me pedissem habitualmente para ficar com a gata deles.
Eu também não deixava de fazer as minhas viagens, mas fazia-as sem sair de casa. Já era velho, e sem a minha companheira, não via qualquer interesse em deslocar-me. As minhas paredes estavam forradas de livros, jornais e revistas. Podia levantar voo para qualquer lugar paradisíaco do mundo, assim que me chegassem à retina as linhas de uma nova poesia, ou uma poesia mais velha do que eu, mas à qual atribuía diferentes leituras que me indicavam outras direcções. Tudo isto me enchia de possibilidades, para logo a seguir, cair novamente no vazio e na tentativa de encontrar o endereço exacto da minha companheira.
Ainda nenhuma página me tinha dado essa resposta, por isso passava muito do meu tempo a perseguir essa demanda. Sabia que tinha uma alternativa, mas de que me adiantaria dar um tiro na cabeça, se a minha alma corria o risco de ficar a pairar em qualquer sítio que não fosse junto dela? Assim, todos os dias procurava esse maldito segredo do endereço das almas e sempre sem sucesso. Nenhum verso me dava pistas sobre a localização dessa alma, dessa que precisava para poder partir em paz.
Um dia, nas minhas pesquisas, pelos recantos da vida, deparei com uma fotografia de uma jóia. Foi com espanto que descobri algo que me surpreendeu. A pedra incrustrada na coleira da ‘Viagem’ era igual a uma que tinha sido furtada de uma ourivesaria em Londres e que possuía um valor exorbitante. Peguei na gata e naquele instante decidi fazer uma viagem.