
sexta-feira, 29 de abril de 2011
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terça-feira, 29 de setembro de 2009
O Cenário
O conteúdo do cálice adquiriu o tom da toalha. Ela pegou nele e dirigiu-se para a beira da lareira. Retirámos os mantos e formámos um círculo à volta do cálice, sentadas no chão. Os nossos olhos viam agora um espelho de sangue onde era possível distinguir formas. Formas de homens e mulheres. Formas que se moviam com sensualidade e paixão. O que estava a acontecer na ‘Ilha dos Amores’ naquele instante era visto por nós atentamente. E lá estavam, misturadas com as ninfas, algumas vampiras de olhos vermelhos, que só os nossos olhos conseguiam reconhecer. Um cenário idílico repleto de leitos de nenúfares, essências de rosas e velas acesas espalhadas por toda a ilha.
Suspiravam elas e eles e suspirávamos nós por não termos conseguido os nossos intentos.
“Perdemos a única hipótese de nos tornarmos mais fortes do que esses vampiros que nos sugam a vida e que sugam a bondade dos Humanos. Agora resta-nos voltar ao nosso tempo, a tempo!” Foram as palavras da feiticeira dos olhos cinzentos que se fechou depois dentro do seu próprio silêncio.
(...)
Excerto do conto 'A Ilha Vermelha'
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Sobre a Perfeição
São Paulo, 13 de Setembro de 2009
Esta carta não vai atravessar os ares nem os mares. Escrevo-a apenas para mim. Vejo-me quase obrigada a traçar estas linhas tortas, porque estou tão velha e tão lúcida e a lucidez deve ser uma entidade muito forte, já que é superior às minhas forças. De Portugal vão chegando notícias de que a minha irmã está senil e parece uma criança. Eu não. Terei de sofrer até ao fim o castigo de perceber tudo o que se passa à minha volta.
Há muitos anos vim para o Brasil à procura do meu irmão. A minha irmã ficou em Portugal. Sempre em casa. Raramente saía do perímetro do seu quintal. Casou e ficou sempre lá. Eu parti e fiquei por cá. Encontrei o meu irmão que já tinha constituído uma nova família. Recebeu-me por cortesia. Não esquecera as amarguras por que passara quando a nossa mãe o deixou partir com um casal estranho que prometeu que lhe daria uma vida melhor. Éramos muito pobres nessa altura. O nosso pai tinha morrido e a nossa mãe chorou toda a vida o desgosto por ter deixado o filho partir, mas o seu coração dizia-lhe que seria o melhor para ele. O coração de mãe também se engana.
Fiquei por cá, não por ele, mas porque me habituei a este clima, a este povo. Quem me ouve falar, toma-me por brasileira, mas quem lê o que escrevo, percebe que nunca deixei de ser portuguesa.
Moro sozinha. Já fui muito bonita, tive os meus pretendentes, mas nunca me quis casar. Trabalhei muito durante todos estes anos. Fiz amigos, mas moro sozinha. Não tenho quem me dê a mão. Nunca soube aceitar as imperfeições dos outros e agora muito menos. Mais cedo ou mais tarde escorraço quem comete um erro, um gesto de ingratidão.
A perfeição é um caminho único e o meu leva à solidão.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Essência Oculta
Não tenho nenhuma ideia de quanto tempo terá passado, até começar a sentir o cheiro a maresia misturado com outro cheiro menos intenso, mas mais inquietante. Naquela altura deduzi que esse odor se devia ao nosso pacto, porque ainda sentia na boca o sabor do meu próprio sangue. Abri os olhos para dar com vários olhos verdes que me olhavam com um ar interrogativo. Teria sido só eu a ser levada por aquela força?
Estávamos na mesma sala, as velas tinham-se apagado, talvez com a corrente de ar que vinha da porta e das janelas abertas. A luz e o marulhar das ondas também nos inundavam com a sua presença à qual nos estávamos a habituar, ou pelo menos assim me parecera na altura pela postura das outras feiticeiras. Nesse momento dei por falta de duas delas: A feiticeira dos olhos cinzentos não estava na cabeceira da mesa, nem em lugar nenhum da sala e, aterrada, vi que a cadeira do meu lado esquerdo se encontrava vazia de vida e com uma enorme mancha de sangue.
Excerto do conto 'A Ilha Vermelha'
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A Bruxa
A bruxa olhou-se ao espelho. E observou aquilo que os seus olhos esmeralda conseguiam alcançar. Sabia que não era encantadora como as suas primas fadas, nem possuía o mistério das amigas elfo, que percorriam os bosques em busca de Humanos para prender nos seus olhares profundos. Porém, possuía uma aura que apenas alguns, muito poucos, conseguiam perceber e desvendar no meio do seu sorriso.O seu olhar era límpido, o seu sorriso aberto e, ao contrário do que a mitologia lhe reservara, tinha um coração bondoso que se partia com as lágrimas derramadas por qualquer Ser, mágico ou não.terça-feira, 21 de julho de 2009
Névoa
Sentia-me hipnotizada por aqueles olhos cinzentos-escuros e não hesitei em aceder aos pedidos daquela voz doce e encantadora. Olhei à minha volta, enquanto todas bebiam o chá com olhar pensativo. Os nossos olhos verdes tocavam-se em silêncio. Uma névoa de fumo vermelho foi-se soltando das chávenas até nos abraçar os ombros e levantar-nos das cadeiras. Deixei de ver a feiticeira taxista que segundos antes estava sentada em frente a mim. Deixei de ver a feiticeira enfermeira no meu lado esquerdo e a feiticeira estafeta no meu lado direito.
Olhasse para onde olhasse, só via fumo vermelho e sentia uma força estranha, exterior ao meu corpo, que me empurrava para trás e à qual não conseguia opor resistência. Tentei abrir a boca para proferir as palavras de magia que me traziam segurança em situações de perigo. A boca abriu-se, mas as palavras tinham-se apagado da memória. A força exterior tornou-se tão intensa e difícil de suportar que me deixei levar sem mais resistência. Fechei os olhos. Perdi os sentidos.
Excerto do Conto 'A Ilha Vermelha'