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terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Cenário

O conteúdo do cálice adquiriu o tom da toalha. Ela pegou nele e dirigiu-se para a beira da lareira. Retirámos os mantos e formámos um círculo à volta do cálice, sentadas no chão. Os nossos olhos viam agora um espelho de sangue onde era possível distinguir formas. Formas de homens e mulheres. Formas que se moviam com sensualidade e paixão. O que estava a acontecer na ‘Ilha dos Amores’ naquele instante era visto por nós atentamente. E lá estavam, misturadas com as ninfas, algumas vampiras de olhos vermelhos, que só os nossos olhos conseguiam reconhecer. Um cenário idílico repleto de leitos de nenúfares, essências de rosas e velas acesas espalhadas por toda a ilha.

Suspiravam elas e eles e suspirávamos nós por não termos conseguido os nossos intentos.

“Perdemos a única hipótese de nos tornarmos mais fortes do que esses vampiros que nos sugam a vida e que sugam a bondade dos Humanos. Agora resta-nos voltar ao nosso tempo, a tempo!” Foram as palavras da feiticeira dos olhos cinzentos que se fechou depois dentro do seu próprio silêncio.

(...)

Excerto do conto 'A Ilha Vermelha'

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Essência Oculta


Não tenho nenhuma ideia de quanto tempo terá passado, até começar a sentir o cheiro a maresia misturado com outro cheiro menos intenso, mas mais inquietante. Naquela altura deduzi que esse odor se devia ao nosso pacto, porque ainda sentia na boca o sabor do meu próprio sangue. Abri os olhos para dar com vários olhos verdes que me olhavam com um ar interrogativo. Teria sido só eu a ser levada por aquela força?

Estávamos na mesma sala, as velas tinham-se apagado, talvez com a corrente de ar que vinha da porta e das janelas abertas. A luz e o marulhar das ondas também nos inundavam com a sua presença à qual nos estávamos a habituar, ou pelo menos assim me parecera na altura pela postura das outras feiticeiras. Nesse momento dei por falta de duas delas: A feiticeira dos olhos cinzentos não estava na cabeceira da mesa, nem em lugar nenhum da sala e, aterrada, vi que a cadeira do meu lado esquerdo se encontrava vazia de vida e com uma enorme mancha de sangue.


Excerto do conto 'A Ilha Vermelha'


segunda-feira, 27 de julho de 2009

A Bruxa

A bruxa olhou-se ao espelho. E observou aquilo que os seus olhos esmeralda conseguiam alcançar. Sabia que não era encantadora como as suas primas fadas, nem possuía o mistério das amigas elfo, que percorriam os bosques em busca de Humanos para prender nos seus olhares profundos. Porém, possuía uma aura que apenas alguns, muito poucos, conseguiam perceber e desvendar no meio do seu sorriso.O seu olhar era límpido, o seu sorriso aberto e, ao contrário do que a mitologia lhe reservara, tinha um coração bondoso que se partia com as lágrimas derramadas por qualquer Ser, mágico ou não.
Gostava de se olhar ao espelho...voltara a gostar de se olhar ao espelho. Durante muito tempo, demasiado tempo, não fora capaz de observar o seu reflexo por não conseguir assumir a sua pele de bruxa. Levara bastante tempo a aceitá-lo. Mas finalmente fizera-o e agora sentia-se orgulhosa dele.
Às vezes, olhava as primas fadas, lindas, singelas e desejava, por momentos, ser como elas. Outras, prendia o olhar nas sedutoras elfo e ansiava adquirir aquela capacidade de encantamento que os seus olhares emanavam, sucumbindo os mais poderosos seres aos seus pés.Mas ela era apenas uma bruxa, uma bruxa sem qualquer especial condição… a não ser a do conhecimento. Sabia que o seu poder residia na sabedoria ancestral que arrecadara das velhas anciãs e dos livros escondidos no canto mais obscuro da floresta. Com eles, aprendera a conhecer as plantas, a ouvi-las falar, a ler-lhe as cores, a interpretar os seus sinais...e a juntá-los concebendo poções e feitiços. E assim, juntamente com o facto de ter chorado três vezes no ventre da sua mãe, tornara-se numa bruxa, ficando fadada com os poderes sobrenaturais que agora tanto prezava e assumia como a sua maior riqueza.
Para a Susn F. pelo apoio e pela busca de projectos comuns

terça-feira, 21 de julho de 2009

Névoa

Sentia-me hipnotizada por aqueles olhos cinzentos-escuros e não hesitei em aceder aos pedidos daquela voz doce e encantadora. Olhei à minha volta, enquanto todas bebiam o chá com olhar pensativo. Os nossos olhos verdes tocavam-se em silêncio. Uma névoa de fumo vermelho foi-se soltando das chávenas até nos abraçar os ombros e levantar-nos das cadeiras. Deixei de ver a feiticeira taxista que segundos antes estava sentada em frente a mim. Deixei de ver a feiticeira enfermeira no meu lado esquerdo e a feiticeira estafeta no meu lado direito.

Olhasse para onde olhasse, só via fumo vermelho e sentia uma força estranha, exterior ao meu corpo, que me empurrava para trás e à qual não conseguia opor resistência. Tentei abrir a boca para proferir as palavras de magia que me traziam segurança em situações de perigo. A boca abriu-se, mas as palavras tinham-se apagado da memória. A força exterior tornou-se tão intensa e difícil de suportar que me deixei levar sem mais resistência. Fechei os olhos. Perdi os sentidos.


Excerto do Conto 'A Ilha Vermelha'