segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sobre a Perfeição


São Paulo, 13 de Setembro de 2009

As minhas mãos tremem enquanto escrevo. Construir uma frase demora uma eternidade e a caligrafia… quase não a reconheço. Já escrevi tantas cartas e recebi outras tantas. Envelopes carregados de folhas que atravessaram o Oceano Atlântico. Alguns extraviaram-se e nunca chegaram ao destino. Provavelmente alguém suspeitou que continham dinheiro.

Esta carta não vai atravessar os ares nem os mares. Escrevo-a apenas para mim. Vejo-me quase obrigada a traçar estas linhas tortas, porque estou tão velha e tão lúcida e a lucidez deve ser uma entidade muito forte, já que é superior às minhas forças. De Portugal vão chegando notícias de que a minha irmã está senil e parece uma criança. Eu não. Terei de sofrer até ao fim o castigo de perceber tudo o que se passa à minha volta.

Há muitos anos vim para o Brasil à procura do meu irmão. A minha irmã ficou em Portugal. Sempre em casa. Raramente saía do perímetro do seu quintal. Casou e ficou sempre lá. Eu parti e fiquei por cá. Encontrei o meu irmão que já tinha constituído uma nova família. Recebeu-me por cortesia. Não esquecera as amarguras por que passara quando a nossa mãe o deixou partir com um casal estranho que prometeu que lhe daria uma vida melhor. Éramos muito pobres nessa altura. O nosso pai tinha morrido e a nossa mãe chorou toda a vida o desgosto por ter deixado o filho partir, mas o seu coração dizia-lhe que seria o melhor para ele. O coração de mãe também se engana.

Fiquei por cá, não por ele, mas porque me habituei a este clima, a este povo. Quem me ouve falar, toma-me por brasileira, mas quem lê o que escrevo, percebe que nunca deixei de ser portuguesa.

Moro sozinha. Já fui muito bonita, tive os meus pretendentes, mas nunca me quis casar. Trabalhei muito durante todos estes anos. Fiz amigos, mas moro sozinha. Não tenho quem me dê a mão. Nunca soube aceitar as imperfeições dos outros e agora muito menos. Mais cedo ou mais tarde escorraço quem comete um erro, um gesto de ingratidão.

A perfeição é um caminho único e o meu leva à solidão.


5 comentários:

pin gente disse...

uma dura carta, susn!
é realmente um motivo de muitas solidões.
vim de um blog onde (por bincadeira) se falava da juventude feliz como algo que só os idosos "idealizam".
como sabes gosto de escrever cartas... foi bom ler esta que escreveste.
um beijo
luísa

O Profeta disse...

Troquei as voltas a um Golfinho feliz
Afagei a cria de uma Baleia azul
Confundi uma nuvem com ilha encantada
Perdi-me na rota entre o Norte e o Sul

Aprisionei o olhar de uma gaivota
Enchi a alma com penas de imensa leveza
Enchi o coração de doce maresia
Adormeci nos braços da incerteza

Vem viajar comigo no meu barco de papel


Bom domingo

Doce beijo

antonior disse...

A busca obsessiva da perfeição é um exercício cruel de intolerância. Para o próprio e para os próximos.

Mais do que à solidão, leva à perdição...

Abraço

pin gente disse...

hoje... para um beijo!

obrigada, susn

Susn F. disse...

Pin Gente: Pessoas com características assim são suficientemente fortes para aguentar a solidão.

beijinhos e mais beijinhos


Antonior: Se calhar mais para os próximos do que para o próprio.

Abraço


O Profeta: Obrigada por deixar aqui os SEUS versos.

bom fim-de-semana